Andrea Machado

Pinceladas sobre Arte e o que mais faz girar o mundo de gente que gira o planeta.

Mira Schendel: do símbolo ao silêncio das obras

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O que me preocupa é captar a passagem da vivência imediata, com toda a sua força empírica, para o símbolo, com sua memorabilidade e relativa eternidade. Sei de que se trata, no fundo, do seguinte problema: a vida imediata, aquela que sofro, e dentro da qual ajo, é minha, incomunicável, e portanto sem sentido e sem finalidade.!
- Mira Schendel.
Mira Schendel.

A extensa produção plástica de Mira Schendel é conhecida somente em sua estada no Brasil e, provavelmente, é uma das mais ricas para a compreensão do nosso estar no mundo. Seu trabalho, como o de tantos outros artistas e intelectuais que viveram o período de crise política e artística ocorridas no século XX, tendeu à fragmentação figurativa e à abordagem de questões fundamentais da nossa existência.

Nascida em Zurique, Suíça, em 1919, Mira vai para Milão e, lá, estuda filosofia e artes. No entanto, devido a sua origem judaica, é obrigada a interromper os estudos para refugiar-se. Passa pela Bulgária e Iugoslávia. E, quando finalmente, os aliados conseguem a rendição de países totalitários e a Segunda Guerra Mundial chega ao fim, ela volta à Itália.

Com a oportunidade de mudar-se para a América, de acordo com as cartas desse período, considera os Estados Unidos e Venezuela como destinos possíveis. Mas, a abertura dada para a vinda de europeus pelo governo brasileiro mostrou-se uma saída pertinente e Porto Alegre o seu destino. Neste período, inicia uma produção de esculturas em cerâmica, passa a dar aulas de pintura e dedica-se à poesia e aos estudos filosóficos.

Sua inserção no sistema artístico se dará, certamente, após a participação na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. Dois anos depois, encontra na capital paulista o destino certo e casa-se com o alemão Knut Schendel, pai de seu único filho, e adota o sobrenome do marido.

A pintura abstrata a acompanhará por toda a sua vida, bem como a série de naturezas-mortas, e é com ela que Mira se insere no sistema artístico paulistano.

Por mais que as décadas de 1960 e 1970 tenham se destacado, em sua produção, por

trabalhos experimentais - em relação ao suporte -, a artista já exercia a livre experimentação sobre tela ou madeira, fosse maciça ou compensada. Testava, desde o início, a inserção de elementos como  areia, madeira e gesso em composições feitas em têmpera ou tinta a óleo.

Ao longo das décadas, seus trabalhos de pintura também passaram a conviver com folhas de ouro, como na série Bordados (1962 - 1964), e colagens.

Mira testou a resistência e a potência de inúmeros materiais de modo exaustivo, sem se preocupar, exatamente, com composições simbólicas. A própria palavra, ao longo do tempo, virou coisa; e aquilo que a construção sintática pouco comunicava, começou a comunicar pouco, a ponto de tornar o alfabeto em imagem, tornou a cor nela própria, a forma em si mesma, e nada mais. Mas o que teria capacidade maior de penetrar o íntimo das coisas senão as próprias coisas?

No entanto, interessava a ela tornar visível o que não se suspeita, evidenciar o vazio e tornar visível o silêncio. Ou ainda, tornar concreto aquilo que a palavra não comunica, que o símbolo não comporta e que a realidade cotidiana rejeita. Coisas levadas nas raízes da condição humana, como a ausência, o vazio e a paciência que se deve ter ao atuar sobre as coisas que nos cercam. "Ser deste mundo. E não ser deste mundo.", como ela descreve em um de seus diários.

A ideia de Deus se embaralha constantemente com a noção de mundo, universo, amor e tantas outras coisas que nos são intimamente vitais. Gradativamente, Mira abandona o símbolo em sua posição comunicadora e o insere no silêncio de sua obra.

Em suas Monotipias e nos Objetos Gráficos, as


Mira Schendel.
Mira Schendel

letras que antes formavam ideias soltas pela área de folha de papel de arroz, agora migram de um canto do retângulo para o outro, segregam-se desproporcionalmente em grades poucos espessas, ou ainda, se empilham todas em pequenos grupos difusos no espaço da folha. Este processo acaba tomando corpo, gradativamente, em todos os seus trabalhos.

Estes e outros trabalhos que compuseram sua trajetória podem ser vistos na maior exposição individual da artista na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A mostra agrega aproximadamente 300 obras, de 1950 até 1987, e está espalhada pelo primeiro e segundo andar do museu. Com curadoria de Tanya Barson, da Tate Modern, e Taisa Palhares, da Pinacoteca, a exposição se dá em parceria com os museus Serralves, de Lisboa, e a Tate Modern, de Londres, e permanece até o dia 09 de outubro.


Mira Schendel.



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1 Comentário(s)
Parabéns pelo artigo!
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